A pergunta certa não é se vale, é a que preço de reposição passa a valer. A relação de troca, a conta completa e a margem por dia. Com calculadora.
"Vale a pena comprar boi para engordar?" não tem resposta, porque falta o número que decide tudo: a que preço.
A mesma operação, no mesmo pasto, com o mesmo ganho de peso, dá lucro ou prejuízo dependendo apenas de quanto se pagou na reposição. Não é o mercado que define o resultado da engorda — é o preço de entrada, e esse você escolhe.
A pergunta útil é: até que preço de reposição esta operação ainda fecha? Isso se calcula antes de ir ao leilão, e vira um teto que você leva anotado.
Este é o ponto que mais gente deixa passar, e ele inverte contas que pareciam boas.
A arroba do bezerro ou do garrote é mais cara do que a arroba do boi gordo. Sempre foi, e é assim porque quem compra reposição não está comprando carne: está comprando potencial de ganho e tempo. Existe uma disputa por animal de reposição que não existe pelo animal pronto.
A consequência é direta. As arrobas que entraram na fazenda você comprou caro e vai vender barato, ao preço do gordo. Nelas você perde. O lucro da operação inteira precisa sair só das arrobas que você produziu — as que o animal ganhou no seu pasto.
Quem calcula "comprei por tanto, vendi por tanto, ganhei a diferença" sem separar essas duas partes descobre tarde que engordou o animal para pagar o ágio da compra.
É o jeito curto de olhar a mesma coisa, e o que se usa na hora de decidir: quantas arrobas de boi gordo são necessárias para comprar um animal de reposição.
Divide-se o preço do bezerro pelo preço da arroba do gordo. Se o bezerro custa o equivalente a 7 arrobas, a relação é 7. Quanto menor o número, mais barata está a reposição em relação ao que você vai vender, e mais confortável fica a engorda.
A vantagem da relação de troca sobre o preço em reais é que ela não envelhece: continua comparável quando tudo subiu junto, e é o que permite comparar este ano com o anterior sem corrigir nada.
Não existe um número mágico de corte, porque ele depende do seu custo de engorda e do seu ganho de peso. Existe o seu número — e ele sai da conta da próxima seção.
Quatro linhas, nesta ordem:
E então o número que quase ninguém calcula e que muda a decisão: a margem dividida pelos dias. Uma operação que rende R$ 400 por cabeça em 120 dias não é igual a outra que rende os mesmos R$ 400 em 300 dias. O capital ficou parado dois e meio a mais para ganhar o mesmo.
Os valores já preenchidos são só um ponto de partida para você substituir pelos seus — não são referência de mercado nem meta. A conta roda no seu aparelho e nada do que você digitar sai daqui.
De toda a conta, um resultado merece atenção separada: o custo da arroba que você produziu. É o custo de engorda dividido pelas arrobas que o animal ganhou na sua fazenda.
Ele é comparável direto com o preço de mercado, e responde a uma pergunta que a margem total não responde: você produz arroba mais barato do que o mercado paga? Se sim, a operação tem fôlego para atravessar queda de preço. Se não, o lucro que aparece em ano bom é do mercado, não seu — e some junto com ele.
É também o número que permite comparar sistemas sem se confundir. Confinamento tem custo por arroba mais alto e prazo muito mais curto; pasto é o inverso. Nenhum dos dois é melhor no abstrato: um libera pasto e capital mais rápido, o outro produz mais barato e amarra o recurso por mais tempo.
A calculadora devolve um número exato, e isso é enganoso. Três coisas podem mover o resultado depois que você já comprou:
Contra os três funciona a mesma coisa: saber o seu próprio custo. Quem produz arroba abaixo do mercado suporta um susto. Quem não sabe o próprio custo descobre o problema quando já não dá para reagir.
Quanto custa cada animal de verdade — de onde sai o custo de engorda desta conta.
Quando o boi está no ponto de abate — o prazo da operação, projetado a partir do ganho diário.
O que faz o preço do boi gordo subir ou cair — o preço de saída que a conta assume conhecido.
Quantas arrobas tem um boi gordo — a conversão de peso vivo em arroba.
Depende inteiramente do preço de reposição, do seu custo de engorda e do prazo. A mesma operação dá lucro ou prejuízo conforme quanto se pagou na entrada. O caminho é calcular, antes de comprar, até que preço a conta ainda fecha, e usar esse valor como teto no leilão.
É quantas arrobas de boi gordo são necessárias para comprar um animal de reposição. Divide-se o preço do bezerro ou garrote pelo preço da arroba do boi gordo. Quanto menor o número, mais barata está a reposição em relação ao produto final e mais folgada fica a margem da engorda.
Porque quem compra reposição não está comprando carne, e sim potencial de ganho e tempo de engorda. Isso cria uma disputa por animal de reposição que não existe pelo animal pronto. O efeito prático é que as arrobas que entram na fazenda foram compradas caro e serão vendidas ao preço do gordo, então o lucro precisa sair das arrobas produzidas.
Divida o custo de engorda do período pelas arrobas que o animal ganhou na fazenda, que são a diferença entre peso de saída e de entrada, multiplicada pelo rendimento de carcaça e dividida por 15. O resultado é comparável direto com o preço de mercado da arroba.
Porque mede o retorno do capital no tempo em que ele ficou parado. Ganhar R$ 400 por cabeça em 120 dias é muito diferente de ganhar os mesmos R$ 400 em 300 dias: no primeiro caso o dinheiro e o pasto ficam livres para outro ciclo bem antes. Comparar operações só pela margem total esconde essa diferença.
Mais do que parece, porque o custo do animal perdido já foi integralmente pago e precisa ser diluído nos que restaram. Uma mortalidade de dois por cento não reduz a receita em dois por cento apenas: ela também redistribui todo o custo daquele animal sobre o lote sobrevivente.
Não há resposta no abstrato. O confinamento produz arroba a custo mais alto, porém em prazo muito menor, o que libera capital e pasto para outro ciclo. A engorda a pasto produz mais barato e imobiliza o recurso por muito mais tempo. A comparação honesta usa custo da arroba produzida e margem por dia, não margem total.